dijous, 24 de juliol del 2014

Ora o Duque de Viseu, irmão da rainha, um nobre até á raiz dos cabelos, leviano e estouvado, pouco inte- ligente e a quem já um astrólogo em Castela (sempre coisas de Castela) profetisara um trono, era o homem naturalmente indicado para desempenhar esse papel e liquidar a política moderna que ventos nefastos traziam da Itália e da França. Levantar por rei o Duque, assim ficou resolvido em Santarém, numa reunião a que assis- tiram D. Fernando e D. Garcia de Menezes, bispo d'Evora, Fernão da Silveira, escrivão da puridade, D. Guterres Coutinho, D. Álvaro e D. Pedro d'Ataide, o Conde de Penamacor e seu irmão Pêro d'Albuquerque, alcaide-mór do Sabugal. Ficou ainda incluído no pro- grama, alem do assassinato do rei, o rapto da Exce- lente Senhora, para assim obrigar Castela a intervir em seu favor (frutificavam as lições del-rei...) e a su- pressão do Príncipe herdeiro, pela forma que a Oportunidade melhor aconselhasse.

O mais acérrimo instigador da conjura, D. Garcia 
de Menezes, tinha, apesar de eclesiástico, e por sua 
desdita, estreitas e amorosas relações com uma tal 
Maria Tinóca, a quem nada ocultava e cujo irmão, 
senhor das inconfidências episcopais, se resolveu por 
vingança ou por cubica, a contar tudo ao rei, pelo que 
recebeu, no convento de S. Francisco em Setúbal, da 
mão do soberano, «cinco mil cruzados em oiro e seissentos 
mil reis de renda em benefícios, logo nomeados». 
Como se vê, o sábio e prudente administrador dos seus 
reinos, não regateava nestas coisas. 

Passados tempos chega novo aviso^ mas agora tra- 
zido por um fidalgo, D. Vasco Coutinho, a quem o 
irmão, D. Guterre, no intuito de o atrair á causa revo- 
lucionária e por sabê-lo em desfavor no Paço, tudo re- 
velara. Mas este Senhor, ou para conquistar as alie- 
nadas simpatias régias, ou porque lhe repugnou a pre- 
meditada traição, fingiu aceitar o seu papel, mas foi 
pondo a par de tudo o liai confidente do soberano, 
Antão de Faria. 

D. João, segundo o seu costume, dissimulou, espe- 
rando pacientemente a hora própria para ferir o golpe. 
Mas prevenido, «andava muy a recato armado muy 
secretamente e sempre com espada e punho e acavalo 
e nunca em muUa». As tentativas de assassínio suce- 
diam-se umas ás outras, pondo ainda mais em relevo 
a coragem deste homem raro que sabendo-se rodeado 
de assassinos, conseguiu sempre manter- se no seu posto, 
sem que jamais o mínimo gesto revelasse o que lhe ia 
na alma. 

De uma vez, ao descer a escada que dava para os 
aposentos da rainha, procurou D. Pedro d'Ataíde
 lança-lo por terra, fingiudo para isso que tropeçara. Ao 
rei nada escapou, e voltando-se, poude ainda ver D. Guterre 
com a espada meio fora da bainha ; mas disse 
naturalmente : 

— Cuidado, não caias. 


Como noutra ocasião, se tivesse afastado da sua 
guarda (*) foi logo rodeado pelos conjurados que viran assi 
ser ocasião asada para liquidar a vitima ; mas o rei, 
encarando serenamente os assassinos, impossibilitou-os 
por um simples olhar, de dar sequer um passo. 

Por último, emfim, resolvido que o atentado se consumasse 
no regresso da corte de Alcácer, mais uma 
vez tudo se malogrou devido aos preciosos avisos de 
Vasco Coutinho. 

O Duque de Viseu, retirado em Palmela, escrevia 
aos conjurados, instigando-os a liquidarem rapidamente o 
caso, pois de contrário seria a perda irremediável.
 Mas o rei, cheio de reZão e sentindo-se cada vez mais
 ameaçado, é que julgou conveniente não protelar por mais 
tempo o desfecho da tragédia.
 Chamou o Duque a Setúbal, e numa sala do Palácio, 
guardadas discretamente 
as portas por Diogo d'Azambuja e mais dois cavaleiros, 
ficou a sós com êle. 
Que se passou então ? 
As narrativas que se referem ao ocorrido, 
são das mais desencontradas.
 Mas conhecido o temperamento sanguíneo e 
o caracter violento de D. João, devia a scena ter sido 
terrível. 

O Duque de Viseu, seu cunhado, ambicioso mesquinho e estúpido, nobre deslial a quem tudo perdoara, 
o homem que pertinaz e traiçoeiramente não pensava 
senão em roubar-lhe a vida «com ferro q peçonha» para 
lhe roubar a coroa, estava ali, deante do Rei, cujos 
olhos, raiados de sangue, fitavam a vitima com uma 
expressão de ódio irreparável. Poucas palavras deviam 
ter trocado. Houve luta ? Tudo leva a crer que sim ; 
mas, o Duque não poude resistir ao pulso desse hércules
 cuja força era conhecida em todo o reino. 

1 comentari:

  1. donde se LÊ QUE OS NOBRES GAMAS SÃO DUMA ESTUPIDEZ SEM EGUAL24 de juliol del 2014, a les 12:24

    É HISTÓRICO...

    ResponElimina

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