divendres, 14 d’agost del 2015

O DEUS TATUADO NA CRUZ entrou a imperar Maximino, e no mesmo ano começou a fatal declinação e ruína do Império romano. Imperando Galério Maximiano em Roma, e conhecendo por muitas experiências que uma monarquia tão vasta não podia ser bem governada por um só homem (o que já tinha antevisto o mesmo Júlio César, seu fundador, quando lhe definiu certos limites), determinou dividi-la em duas partes e duas cabeças, como com efeito a dividiu em dois imperadores e dois impérios: um chamado ocidental, de que continuou a ser cabeça Roma , outro chamado oriental, de que começou a ser cabeça Constantinopla; e foram os dois novos imperadores, do ocidente Severo, e do oriente Maximino, ambos tiranos, mas com os nomes trocados; porque Maximino não só foi severo, senão o extremo da severidade e da sevícia. Por esta ocasião a águia, insígnia das bandeiras romanas, que até então tinha uma só cabeça, começou a aparecer com duas, como hoje a vemos, posto que é mais fácil copiar o pintado, que restaurar o verdadeiro. E como a divisão em todas as comunidades de homens e de coroas é indício fatal de declinação e ruína, assim o foi no império e águia romana a divisão daquelas duas cabeças. Já o profeta Daniel o tinha mostrado na mesma divisão, não das cabeças da águia, senão dos pés da estátua. Na estátua de Nabucodonosor, formada das quatro monarquias ou impérios, que sucessivamente haviam de florescer no Mundo, a cabeça de ouro significava o império dos assírios; o peito de prata, o império dos persas; o ventre de bronze, o império dos gregos; e o resto de ferro até os pés, o império dos romanos. E porque bastou que tocasse os mesmos pés uma pedra arrancada do monte sem mãos, para que caísse toda a estátua, e o mesmo império romano, e as outras monarquias, que nele por sucessão se continuavam, ficassem convertidas em pó?—Porque naqueles dois pés, divididos entre si, e cada pé dividido em cinco dedos, e cada dedo dividido em ferro e barro, teve o seu último complemento a divisão do império romano. E assim como nas duas cabeças da águia, em que começou a divisão do mesmo império, começou a sua declinação; assim na divisão dos dois pés da estátua, em que teve o último complemento a sua divisão, teve também o último fim a sua ruína. De sorte (reduzindo a conclusão aos termos da nossa metáfora) que a roda da Fortuna do império romano, na divisão das duas cabeças da águia, começou a voltar, e na divisão dos dois pés da estátua, acabou a volta. Agora havemos de ouvir a Plutarco, o famoso filósofo grego, que não é dos que convenceu Santa Catarina, porque floresceu muito antes; mas eu o quero convencer a ele, digno de se ouvir neste caso. Excitando Plutarco e disputando uma questão sobre a fortuna do império romano, diz assim: Fortuna persis et aissyriis desertis, cum leviter pervolasset Macedoniam et celeriter abjecisset Alexandrum. ægyptiosque, deinde et Syriam peragrando regna extulisset et sæpe conversa carthaginenses tulissett, postquam transmisso Tiberi ad palatium appropinquavit, alas deposuit, talaria exuit, ac infideli et versatili globo misso, Romam intravit mansura. Quer dizer: A Fortuna, depois de deixar os persas e assírios, depois de voar levemente pela Macedônia e rejeitar Alexandre e os que no Egito lhe sucederam, depois de andar pela Síria levantando e desfazendo reinos, e se deter, já próspera, já adversa, com os cartagineses, passando finalmente o Tibre, chegou ao capitólio romano, e ali arrancou dos ombros as asas maiores e descalçou dos pés as menores, ali se despojou e desarmou do globo, ou roda variável e inconstante, e ali, isto é, em Roma, fez o seu perpétuo assento, para nela perseverar e morar sempre firme e sem mudança. Isto é o que disse Plutarco, e isto o que criam os imperadores romanos, os quais sobre esta fé fundaram de ouro uma estátua da sua Fortuna e a colocaram no mesmo aposento onde eles dormiam, como que pudessem dormir seguros, pois a Fortuna lhe guardava o sono; e quando algum imperador morria, passava e era levada a mesma estátua ao sucessor, mostrando a vaidade e superstição dos que chegavam a alcançar a coroa romana, que podiam restar da Fortuna, como de patrimônio hereditário e próprio. Estava isto escrito nos seus Anais, como oráculo dos deuses; isto celebravam os seus poetas, os bucólicos com frautas pastoris à sombra das faias ; os heróicos com trombetas marciais em assombro das outras nações; e assim o cantou com elegante mentira o maior de todos, quando disse: Higo ego nec metas rerum, nec tempora pono, Imperium sine fine dedi (I). Agora pudera eu perguntar aos imperadores romanos, ou dormindo ou acordados, onde está aquela sua Fortuna de ouro, ou o ouro daquela Fortuna? Foi volta da mesma Fortuna, verdadeiramente lastimosa. Quando Alarico sitiou a Roma, viram-se os romanos tão apertados, que houveram de remir a dinheiro o levantar-se o sitio, e então entre o ouro e prata das outras estátuas dos seus deuses, foi também batido em moeda o ouro da sua Fortuna. Assim dormiam seguros os que se fiavam da fé de uma traidora e da vigilância de uma cega. Mas eu só quero confundir e envergonhar a Plutarco com as palavras da sua mesma lisonja. Diz que depôs a Fortuna ao pé do capitólio a roda. E quantas vezes a tornou a tomar e lhe deu tais voltas na Itália e dentro da mesma Roma, que meteu a que era cabeça do Mundo debaixo dos pés de Atila e Totila, inundada de godos e hunos, de suevos e alanos, e de tantos outros bárbaros? Diz do mesmo modo, que também depôs ali a Fortuna as asas. E quantas vezes as tornou a tomar e voou às Germanias, às Gálias e às Espanhas, que Roma imaginava pacificamente sujeitas com os presídios das suas legiões, contra as quais, porém, se levantaram então aquelas mesmas nações, como tão altivas e belicosas, não só restituindo-se cada uma ao que era seu, mas cortando às águias romanas as unhas com que lho tinham roubado? Diz mais, que em Roma fez a Fortuna o seu assento, para nela morar perpetuamente. E se no interior da mesma Roma recorrermos às cousas de maior duração, quais são os mármores; quantos anos, e quantos séculos há, que dos mesmos mármores levantados em obeliscos e arcos triunfais, se vêem só as miseráveis ruínas, ou meio sepultadas já ou cobertas de hera? Finalmente, aquele império sem fim, a que a fortuna não pôs metas ou limites alguns, nem à grandeza, nem ao tempo, diga-nos a mesma Fortuna onde está, e onde o tem escondido? Busque-se em todo o Mundo o império romano, e não se achará dele mais que o nome, e este não em Roma, senão muito longe dela. Acabaram-se as guerras e vitórias romanas, não só fechados, mas quebrados para sempre os ferrolhos das portas de Jano; acabaram-se os capitólios; acabaram-se os consulados; acabaram-se as ditaduras; acabaram-se para os generais as ovações e os triunfos; acabaram-se para os capitães famosos as estátuas e inscrições; acabaram-se para os soldados as coroas cívicas, murais e rostratas; acabaram-se enfim com o império os mesmos imperadores, e só vivem e reinam, ao revés da roda da Fortuna, os que eles quiseram acabar. Acabou Nero; e vivem e reinam Pedro e Paulo; acabou Trajano, e vive e reina Clemente; acabou Marco Aurélio, e vive e reina Policarpo; acabou Vespasiano, e vive e reina Apolinar; acabou Valeriano, e vive e reina Lourenço; acabou enfim Maximino, e vive e reina Catarina; ele, e os outros imperadores, porque se fiaram falsamente do império sem fim: Imperium sine fine dedi; e ela com os seus e com os outros mártires, porque reinam e hão de reinar por toda a eternidade com Cristo, no Reino que verdadeiramente não há de ter fim: Cujus regni non erit finis. Siquidem similis eris illi, cum videris eum sicuti est, esto et nunc similis ei, videns eum sicuti propter te factos est.Flet quoque, ut in speculo rugas conspexit aniles Tindaris, et secum cur sit bis rapta requirit. Que coisa é a formosura, senão uma caveira bem vestida, SÃO LIVROS QUE UMA VEZ LIDO NADA TÊM PARA RELERAcertaram, porém, os mesmos gentios na figura que lhe deram de mulher, pela inconstância; nas asas dos pés, pela velocidade com que se muda; e sobretudo em lhos porem sobre uma roda; porque nem no próspero, nem no adverso, e muito menos no próspero, teve jamais firmeza. Dos que a fizeram de ouro diremos depois; o que agora somente me parece dizer, é que os que a fingiram de vidro pela fragilidade, fingiram e encareceram pouco; porque ainda que a formassem de bronze, nunca lhe podiam segurar a inconstância da roda. Em uma das fábricas particulares e famosas do Templo, diz o texto sagrado, que fez Salomão dez bases de bronze, quadradas e iguais por todas as partes: Fecit decem bases aneas, quatuor cubitorum longitudinis, bases singulas et quatuor cubitorum latitudinis (3. Reg. VII-27). Diz mais (o que se o não dissera, não se imaginara) que estas dez bases se assentara cada uma sobre quatro rodas: Et quatuor rota per bases singulas (Ibid.—3o): acrescentando para maior clareza, que as rodas eram propriamente como as das carroças, com seus eixos, raios e tudo o mais fundido também no mesmo bronze: Tales autem rotæ erant quales solent in curru fieri; et axes earum, et radii, et canthi, et modioli, omniu fusilia (Ibid. —33). Toda esta miudeza foi necessário que se explicasse, para que se entendesse a obra, da qual se não fora o autor Salomão, quem haveria que ao menos não estranhasse tal modo de arquitetura? As bases são o fundamento e firmeza de toda a fábrica; a figura quadrada, entre todas as figuras a mais firme; o bronze, entre todos os metais o mais forte. Pelo contrário, as rodas com eixos, e todos os outros instrumentos de se moverem, são entre todas as cousas a menos constante, a menos estável, a menos firme. Pois porque assenta a sabedoria de Salomão toda a firmeza e fortaleza das suas bases sobre rodas? Assentadas as bases sobre rodas, ficam sendo as rodas bases das bases; e isto, que não faria, não digo eu Vitrúvio, (I) senão o arquiteto mais imperito, que o fizesse Salomão?!—Sim, e com tanta arte como mistério. Aquela obra era o chamado mar Éneo (2), fabricado antes de espelhos, e para espelho dos que nele se fossem ver e compor. Quis pois o mais sábio de todos os homens, que na mesma traça, disposição e ordem da fábrica, vissem e reconhecessem todos, que não há não pode haver neste Mundo coisa alguma tão sólida, tão forte, tão firme, nem ainda tão santa (qual aquela era), que, como se estivera fundada sobre rodas, não esteja sempre sujeita às voltas, declinações e mudanças de qualquer impulso, impressão ou movimento contrário. Tudo o que se diz da Fortuna, e seus poderes, é fingido e falso; só uma coisa há nela certa e verdadeira, que é a roda. E para que nos vamos chegando ao nosso caso, deixados os vidros e bronzes, que são nomes metafóricos, falemos agora com o próprio do homem, e de todas as coisas humanas, que é o barro. Mandou Deus Nosso Senhor ao profeta Jeremias, que fosse à oficina de um oleiro, e que depois de ver o que aquele homem fazia, lhe declararia o por que lá o mandava. Foi o profeta, e diz que achou o oleiro trabalhando sobre a sua roda: Et ecce ipse faciebat opus super rotam (Jerom. XVIII—3). E notando então com particular advertência o que fazia, viu que ao princípio estava formando um vaso muito polido, o qual, como se lhe descompusesse e desmanchasse entre as mãos, desfê-lo, e, como irado contra ele, tornou a amassar e pôr na roda o mesmo barro, e fez outro vaso muito diferente, como lhe veio à fantasia. Aqui falou então Deus ao profeta, e lhe disse desta maneira:—Assim como o oleiro tem nas suas mãos o barro, e dele faz uns vasos e desfaz outros; assim tenho eu nas minhas mãos o Mundo, e posso desfazer uns reinos e fazer outros ao meu arbítrio. E se ele com a ponta de um pé dá estas voltas a sua roda, julga tu, se o poderei fazer eu. Vai a Jerusalém, conta-lhe o que viste e dize-lhe que o primeiro vaso tão polido que o oleiro fazia, é o reino de Israel, tão amado e favorecido da minha providência, o qual com a sua rebeldia se me descompõe entre as mãos; e que ainda estou aparelhado para lhe perdoar e arrepender do que tenho determinado; mas que se ele se não quiser emendar, darei volta à roda, e do mesmo barro farei outro vaso. Jerusalém passará para Babilônia, e o reino, que aqui é de El-Rei Joaquim com liberdade, lá será de Nabucodonosor com perpétuo cativeiro. E assim foi. Oh que facilmente se engana o juízo humano nas apreensões de qualquer sucesso próspero? Por isso disse sábia e prudentissimamente o grande senador romano, Severino Boécio, que melhor e mais útil é ao homem a fortuna adversa, que a próspera: Plus reor hominibus adversam, quam prosperam prodesse fortunam (I). E dá a razão; porque a próspera mente e a adversa desengana: Illa enim semper specie felicitatis, cum videtur b1anda, mentitur; hæc semper vera est, cum se instabilem mutatione demonstrat. Illa fallit, hæc instruit. Quem se não quiser enganar com as lisonjas da Fortuna próspera, olhe para a roda. Nela, e do mesmo barro faz Deus reinos e desfaz reinos; desfaz Jerusaléns e acrescenta Babilônias; cativa os livres e restitui a liberdade aos cativos. Assim o fez a benignidade divina, dando outra volta à roda, e restituindo os cativos de Babilônia a liberdade, de que poucos já se lembravam, no fim de setenta anos: caso bem parecido ao nosso.

Lá, depois de setenta anos; cá, depois de sessenta, uns e outros profetizados: mas nem por isso cuide alguém, que para todas estas voltas da roda são necessários tantos espaços ou tantos vagares do tempo. As rodas do carro de Ezequiel, em que Deus se lhe mostrou governando todo este Mundo, eram cada uma composta de duas, uma roda atravessada e outra cruzada com ela pelo meio. Isso quer dizer: Rota in medio rotæ (Ezeq. X—10). E que rodas eram e são estas?—Uma é a roda da Fortuna, outra a roda do Tempo. Mas de taI maneira unidas e travadas entre si, e tão independentes uma do curso da outra, que para a roda do Fortuna dar uma volta inteira, não é necessário que a de também inteira o Tempo. As voltas da roda do Tempo são as mesmas que as do Sol. O Sol dá uma volta maior cada ano, e uma maior cada dia. Porém, para a Fortuna dar uma volta inteira aos maiores impérios não são necessários anos nem dias.
O maior império e monarquia que tinha havido no Mundo, era a dos assírios e caldeus. E quantas horas houve mister a roda da Fortuna para derribar esta e levantar sobre ela outra maior? Diga-o a Escritura Sagrada por boca de Daniel, que se achou presente: Eadem nocte intrfectus est Baltassar rex chaldæus, et Darius Medus successit in regnum (Dan. V—3º e 3I): Na mesma noite fatal em que o rei com mil magnates da sua monarquia, convidados para um solene banquete, estavam brindando aos seus deuses, foi morto—diz Daniel—Baltazar, rei caldeu, e lhe sucedeu no império Dario medo. De sorte que tanto mais depressa deu volta a roda da Fortuna que a roda do Tempo, que, não tendo o Tempo em ausência do Sol andado um dia natural, nem meio dia, a Fortuna, morto Baltazar e sucedendo-lhe na coroa Dario, já tinha posto por terra a monarquia dos assírios e caldeus, e levantado até as nuvens a dos persas e medos.
Caiu a monarquia, mas não caiu a corte; porque ficaram em pé os famosos muros de Babilônia, com os seus jardins cultivados no ar, por isso chamados hortos pensiles; onde, porém, até as flores não escaparam de ficar tristemente murchas e secas, servindo a mãos estranhas, que as não tinham regado. E para que alguém não imagine da roda da Fortuna, que, não perdoando às coroas, ao menos dá quartel às pedras; passando do maior império da Ásia à melhor cidade da Europa, ouçamos em outra coisa não menos trágica, quão precipitada é a sua volta também em estas ruínas.
Fala Sêneca da antiga Lugduno (I), que anoitecendo cidade, amanheceu cinza, e escreve assim:Tot pulcherrima opera, quæ singula illustrare urbes singulas possent, una nox stravit. Et in tanta pace, quantum ne bello quidem timeri potest, accidit. Quis credat? Lugdunum, quod ostendebatur in Gallia, quæritur. Omnibus fortuna, quos publice affixit, quod passuri erant, timere permisit. Nulla res magna non aliquod habuit ruinæ suæ spatium. In hac una nox interfuit inter urbem maximum, et nullam. Denique diutius illam periisse, quam periit, narro (Sénec. Epist.). É lástima haver de afrontar com a tradução de qualquer outra língua a elegância destas palavras. "Aqueles famosos edifícios—diz Sêneca—que cada um deles pudera enobrecer e ilustrar uma cidade, todos igualou com a terra uma noite; e aconteceu na bela paz, o que nem da mais furiosa guerra se pudera temer. Quem tal crera? Aquela Lugduno, que se mostrava por maravilha na Gália, busca-se nela, e não se acha. A todos os que a Fortuna afligiu publicamente, permitiu que temessem o que haviam de padecer, e a nenhum coisa grande deixou de dar o tempo algum espaço à sua própria ruína. Só nesta, entre a cidade máxima e o nada, não houve mais que uma noite. Ainda acabou mais depressa do que eu o escrevo". Atequi a narração e ponderação do grande filósofo. E como para as maiores voltas e mudanças da roda da Fortuna não são necessários anos, nem dias inteiros, e da ametade de um dia sobejam ainda horas e essas as mais ocultas à vista; que segurança pode haver tão confiada, que entre os abraços mais lisonjeiros da felicidade não tema os seus reveses? E que reino ou república, que rei ou capitão prudente, que entre os maiores triunfos lhe não esteja sempre batendo às portas do coração aquela voz duvidosa: Ne forte?