Lá, depois de setenta anos; cá, depois de sessenta, uns e outros profetizados: mas nem por isso cuide alguém, que para todas estas voltas da roda são necessários tantos espaços ou tantos vagares do tempo. As rodas do carro de Ezequiel, em que Deus se lhe mostrou governando todo este Mundo, eram cada uma composta de duas, uma roda atravessada e outra cruzada com ela pelo meio. Isso quer dizer: Rota in medio rotæ (Ezeq. X—10). E que rodas eram e são estas?—Uma é a roda da Fortuna, outra a roda do Tempo. Mas de taI maneira unidas e travadas entre si, e tão independentes uma do curso da outra, que para a roda do Fortuna dar uma volta inteira, não é necessário que a de também inteira o Tempo. As voltas da roda do Tempo são as mesmas que as do Sol. O Sol dá uma volta maior cada ano, e uma maior cada dia. Porém, para a Fortuna dar uma volta inteira aos maiores impérios não são necessários anos nem dias.
O maior império e monarquia que tinha havido no Mundo, era a dos assírios e caldeus. E quantas horas houve mister a roda da Fortuna para derribar esta e levantar sobre ela outra maior? Diga-o a Escritura Sagrada por boca de Daniel, que se achou presente: Eadem nocte intrfectus est Baltassar rex chaldæus, et Darius Medus successit in regnum (Dan. V—3º e 3I): Na mesma noite fatal em que o rei com mil magnates da sua monarquia, convidados para um solene banquete, estavam brindando aos seus deuses, foi morto—diz Daniel—Baltazar, rei caldeu, e lhe sucedeu no império Dario medo. De sorte que tanto mais depressa deu volta a roda da Fortuna que a roda do Tempo, que, não tendo o Tempo em ausência do Sol andado um dia natural, nem meio dia, a Fortuna, morto Baltazar e sucedendo-lhe na coroa Dario, já tinha posto por terra a monarquia dos assírios e caldeus, e levantado até as nuvens a dos persas e medos.
Caiu a monarquia, mas não caiu a corte; porque ficaram em pé os famosos muros de Babilônia, com os seus jardins cultivados no ar, por isso chamados hortos pensiles; onde, porém, até as flores não escaparam de ficar tristemente murchas e secas, servindo a mãos estranhas, que as não tinham regado. E para que alguém não imagine da roda da Fortuna, que, não perdoando às coroas, ao menos dá quartel às pedras; passando do maior império da Ásia à melhor cidade da Europa, ouçamos em outra coisa não menos trágica, quão precipitada é a sua volta também em estas ruínas.
Fala Sêneca da antiga Lugduno (I), que anoitecendo cidade, amanheceu cinza, e escreve assim:Tot pulcherrima opera, quæ singula illustrare urbes singulas possent, una nox stravit. Et in tanta pace, quantum ne bello quidem timeri potest, accidit. Quis credat? Lugdunum, quod ostendebatur in Gallia, quæritur. Omnibus fortuna, quos publice affixit, quod passuri erant, timere permisit. Nulla res magna non aliquod habuit ruinæ suæ spatium. In hac una nox interfuit inter urbem maximum, et nullam. Denique diutius illam periisse, quam periit, narro (Sénec. Epist.). É lástima haver de afrontar com a tradução de qualquer outra língua a elegância destas palavras. "Aqueles famosos edifícios—diz Sêneca—que cada um deles pudera enobrecer e ilustrar uma cidade, todos igualou com a terra uma noite; e aconteceu na bela paz, o que nem da mais furiosa guerra se pudera temer. Quem tal crera? Aquela Lugduno, que se mostrava por maravilha na Gália, busca-se nela, e não se acha. A todos os que a Fortuna afligiu publicamente, permitiu que temessem o que haviam de padecer, e a nenhum coisa grande deixou de dar o tempo algum espaço à sua própria ruína. Só nesta, entre a cidade máxima e o nada, não houve mais que uma noite. Ainda acabou mais depressa do que eu o escrevo". Atequi a narração e ponderação do grande filósofo. E como para as maiores voltas e mudanças da roda da Fortuna não são necessários anos, nem dias inteiros, e da ametade de um dia sobejam ainda horas e essas as mais ocultas à vista; que segurança pode haver tão confiada, que entre os abraços mais lisonjeiros da felicidade não tema os seus reveses? E que reino ou república, que rei ou capitão prudente, que entre os maiores triunfos lhe não esteja sempre batendo às portas do coração aquela voz duvidosa: Ne forte?
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