O mais acérrimo instigador da conjura, D. Garcia
de Menezes, tinha, apesar de eclesiástico, e por sua
desdita, estreitas e amorosas relações com uma tal
Maria Tinóca, a quem nada ocultava e cujo irmão,
senhor das inconfidências episcopais, se resolveu por
vingança ou por cubica, a contar tudo ao rei, pelo que
recebeu, no convento de S. Francisco em Setúbal, da
mão do soberano, «cinco mil cruzados em oiro e seissentos
mil reis de renda em benefícios, logo nomeados».
Como se vê, o sábio e prudente administrador dos seus
reinos, não regateava nestas coisas.
Passados tempos chega novo aviso^ mas agora tra-
zido por um fidalgo, D. Vasco Coutinho, a quem o
irmão, D. Guterre, no intuito de o atrair á causa revo-
lucionária e por sabê-lo em desfavor no Paço, tudo re-
velara. Mas este Senhor, ou para conquistar as alie-
nadas simpatias régias, ou porque lhe repugnou a pre-
meditada traição, fingiu aceitar o seu papel, mas foi
pondo a par de tudo o liai confidente do soberano,
Antão de Faria.
D. João, segundo o seu costume, dissimulou, espe-
rando pacientemente a hora própria para ferir o golpe.
Mas prevenido, «andava muy a recato armado muy
secretamente e sempre com espada e punho e acavalo
e nunca em muUa». As tentativas de assassínio suce-
diam-se umas ás outras, pondo ainda mais em relevo
a coragem deste homem raro que sabendo-se rodeado
de assassinos, conseguiu sempre manter- se no seu posto,
sem que jamais o mínimo gesto revelasse o que lhe ia
na alma.
De uma vez, ao descer a escada que dava para os
aposentos da rainha, procurou D. Pedro d'Ataíde
lança-lo por terra, fingiudo para isso que tropeçara. Ao
rei nada escapou, e voltando-se, poude ainda ver D. Guterre
com a espada meio fora da bainha ; mas disse
naturalmente :
— Cuidado, não caias.
Como noutra ocasião, se tivesse afastado da sua
guarda (*) foi logo rodeado pelos conjurados que viran assi
ser ocasião asada para liquidar a vitima ; mas o rei,
encarando serenamente os assassinos, impossibilitou-os
por um simples olhar, de dar sequer um passo.
Por último, emfim, resolvido que o atentado se consumasse
no regresso da corte de Alcácer, mais uma
vez tudo se malogrou devido aos preciosos avisos de
Vasco Coutinho.
O Duque de Viseu, retirado em Palmela, escrevia
aos conjurados, instigando-os a liquidarem rapidamente o
caso, pois de contrário seria a perda irremediável.
Mas o rei, cheio de reZão e sentindo-se cada vez mais
ameaçado, é que julgou conveniente não protelar por mais
tempo o desfecho da tragédia.
Chamou o Duque a Setúbal, e numa sala do Palácio,
guardadas discretamente
as portas por Diogo d'Azambuja e mais dois cavaleiros,
ficou a sós com êle.
Que se passou então ?
As narrativas que se referem ao ocorrido,
são das mais desencontradas.
Mas conhecido o temperamento sanguíneo e
o caracter violento de D. João, devia a scena ter sido
terrível.
O Duque de Viseu, seu cunhado, ambicioso mesquinho e estúpido, nobre deslial a quem tudo perdoara,
o homem que pertinaz e traiçoeiramente não pensava
senão em roubar-lhe a vida «com ferro q peçonha» para
lhe roubar a coroa, estava ali, deante do Rei, cujos
olhos, raiados de sangue, fitavam a vitima com uma
expressão de ódio irreparável. Poucas palavras deviam
ter trocado. Houve luta ? Tudo leva a crer que sim ;
mas, o Duque não poude resistir ao pulso desse hércules
cuja força era conhecida em todo o reino.
É HISTÓRICO...
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