Tudo quanto expresso estava na mensagem
se expôs e defendeu com desassombro.
Disse eu então, e não o esquecerei, ser convic-
ção minha que aquele governo, continuando no
-poder e dentro da mesma política, terminaria com
uma revolução, pois, a acrescentar a todas as di-
ficuldades anteriores e vícios ingénitos do gover-
no, o sr. Dr. Afonso Gosta, chefe dum partido
radical, sem a coragem de enfiar pelo caminho
que esse título lhe impunha, esquivando-se a de-
liberar as medidas financeiras imprescindíveis,
como o lançamento de impostos sobre os lucros
de guerra, fazia entre as classes conservadoras e
as populares uma política de equívoco, toda de
puro dano, porque poupava os inimigos irredutí-
veis e distanciava-se dos únicos capazes de lhe
dar apoio. Noutro sentido era acanhada a sua po-
lítica financeira: fechando-se a todas as despesas
sem imediata e restrita aplicação à guerra, desde-
nhava as medidas capazes de nos apetrechar ma-
terial e moralmente para colher os frutos do nosso
esforço, acabada a luta europeia.
Para a formação do ministério nacional pieco-
nizávamos a entrada de representantes não só dos
partidos republicanos, como das classes operárias,
indo eu até pronuneiar-me pela entrada no minis-
tério dum católico, dtfs que se afirmavam neutros
em matéria política. Um governo assim teria a
confiança da nação e ainda, quando os unionistas
teimassem no seu alheamento, com a representa-
52 Memórias da Grande Guerra
ção restante êle tornava, só por si, impossível
qualquer tentativa revolucionária. Eram necessá-
rias pesadas concessões? Tudo era preferível à in-
tranquilidade e à perspectiva dum desastre interno.
Mais ou menos todos defendemos estas opi-
niões.
O snr. Dr. Afonso Costa ouviu-nos até ao
fim de boca cerrada e viseira sombria. E ora o vereis
que se ergue e se lança ao ataque, tomando uma a
uma as suas melhores armas, lento, calmo, arro-
gante, até despedir sobre nós o raio fulminatório.
Descobrira o ponto vulnerável: uma démarche,
de nossa iniciativa, para a formação do governo na-
cional, representava um cheque no governo e no
partido e eram a sua confissão pública de incapaci-
dade e desautoração suprema, dadas as responsabili-
dades gravíssimas assumidas no problema da guerra.
E com o seu esplêndido poder dialéctico, a danosa
prática do foro (àquela hora já os jurados haviam
de estar seguros) e a educação de esgrimista, in-
sistiu no ponto fraco, deu-lhe proporções capazes
de esconder tudo o mais, levou-o, por hipótese,
até às piores consequências, e, chegado ao ponto
culminante em que o auditório se deslumbra e o
inimigo jorra sangue, ataca-nos então de frente,
apoda-nos de descrentes, indisciplinados, a doença
do partido, e de tal forma empolga a assemblea
que os próprios rebeldes de há pouco deixam
cair as armas e já lhe pagam, humílimos, tributo
de apoio e aplauso. Um confessa-se vencido e
Luta Inglória 53
convencido, outro entrega-se com armas e baga-
gens, e até o Ramada Curto, que pronunciara nas
vésperas um discurso formidável conclui afirman-
do-lhe que o conflito tivera uma vantagem, —
mostrar mais % uma vez e duma maneira irrefragá-
vel a sua superioridade sobre todos os outros. Era
verdade. Tinham sido vencidos os liliputianos.
Tentei ainda resistir: que ele versara apenas
um lado da questão, que se o meio não era o me*
lhor, era o propósito excelente, levantei os epíte-
tos depreciativos... Mas que importava agora?
Acutilava sozinho em meio da debandada final.
Era forçoso curvar-me. Nenhum de nós tinha pul-
so para a funda de David; nem do coração da
arraia brotava o arrojo dos fundibulários. Toda a
gente mesmo se erguia fatigada. Findara o torneio.
E era de ver o vencedor radiando alegria triun-
fante. Abraços, cumprimentos, risos. E, ao cortar
a sala, ei-lo, pára na minha frente, poisa-me a
mão no ombro e sai-lhe, na efusão da vitória, a
modos de balanço final:
— Este é o mais ingénuo. . .
Juizo profundo, que, excluindo, é lato e tenta,
com as molas próprias, compor a engrenagem da
máquina inteira.
Eu volto:
— Agradeço-lhe do coração: não podia di-
zer-me palavra mais lisongeira.'
Em verdade vos digo: alguma razão lhe dou.
Oxalá êle não venha também a dar-ma.
EM VIAGEM
Agosto de 1917.
Restes últimos seis meses voltei a ser estudante.
*~ ' - Como, desde a formatura, há mais de sete
anos, não exerço a profissão, posto assim ao abri-
go da lei que isenta todos os médicos, em condi-
ções tais, do serviço militar, refaço nos hospitais
a minha educação médica.' Pois que sou voluntá-
rio, valorizo a oferta e justifico a lei.
Também o meu recente fracasso, esfolhando-
-me as ilusões sobre o proveito de lutar, desviou-
-me do ring politico. Vencido, mas não con-
vencido, continuo, todavia, na minha atitude de
protesto. O meu desejo agora é partir quanto an-
tes. Além de que, como todos quantos rompem o
círculo dos logros convencionais e vêem cá para
fora dizer, como o garoto da lenda, que o rei vai
nú, começo a convencer-me que sou de mais,
assediam-me com suspeitas, oferecimentos equívo-
cos e olhares desconfiados.
Em Viagem 55
Uf! No dia em que partir teremos todos um
suspiro de alívio.
Sim! eu permaneço na minha. Ainda agora os
acontecimentos de julho, a greve da construção
civil com todo o seu violento aparato, me levam
a crer que estou na razão. O governo divorcia-se
do povo, ou pelo menos duma parte dele. E tudo
por estreiteza de visão. E por falta da verdadeira
coragem.
Parto. Chegou o dia. E na véspera vou despe-
dir-me do ministro da guerra. Encontro-o no seu
gabinete, à hora previamente marcada para me
receber.
O snr. Norton de Matos está na sua cadeira e
finca sobre os joelhos as palmas das mãos, com o
geito afadigado, que, até no repouso, guardam os
homens activos. Uma grande sombra de cuidado
arruga-lhe a fronte e os olhos.
Digo-lhe o meu desejo de que a sua elevada
missão possa alcançar o termo vitorioso, sem gran-
des esforços. Cala-se. Tem um momo de quem
duvida, e logo me diz claramente o seu receio,
acabando à laia de comentário:
— Não; isto não se leva com panos quentes.
A seu vêr, requeria-se uma política mais deci-
dida e radical. E a sombra, feita 'de cansaço e
preocupação, alastra dos sulcos da fronte a toda a
cara.
Despeço-me. Apertamos as mãos.
À saída vou também dizer adeus ao Tejo, que
56 x . v Memórias da Grande Guerra »
\
f>si"aif vai na frente. Engolfo a vista, ao largo, sobre
o vasto estuário do Rio, todo a turqueza azul e
espumas irizadas. .
Belo rio! Bela terra!... Mas por que demónio,
desde sempre, mal um homem alevanta ombros
fortes sobre a turba-multa dos derreados, logo a
matilha dos ódios arreganha colmilhos à sua volta?
Sim! os seus ombros são válidos e isso ama-
chuca os homúnculos de espinhela caída.
Aquela sombra, que eu lhe vi no rosto, anu-
via-me também por dentro.
E começo a recompor, traço a traço, a sua
obra e figura.
O seu vulto, só por si, exala esforço contido.
Meão, entroncado, a gorja curta c. larga, o gesto
brusco, e, na máscara dura, os. olhos graves e quási
tristes das aves de presa. Sobre isto uma correcta
distinção; monóculo.
Todo êle é um imperativo de energia máscula.
Não descansa. Trabalha no seu" gabinete pela noite
dentro até altas horas; ao começar a manhã, volta,
indomável, à faina.
Homem para agir, é-lhe penoso falar. Mas»
quando fala, na própria rudeza da frase, excluindo
todo o artifício, palpa-se a sinceridade. Se o ata-
cam, assemelha-se a um grande pedreiro irado,
que interromperam na obra: argumenta com as
mesmas pedras que tem na mão, ou brande os
punhos fechados no rasgo sacudido de quem
abate um camartelo. Então, lembra certas estátuas
4/
Uma cara das trincheiras
(o alferes miliciano Carneiro Franco)
Memórias da Grande Gierra
\
Em Viagem 57
de Rodin, cuja figura vaga e áspera a custo ar-
ranca na massa do mármore.
Arrebatado, excede-se nas virtudes, até os seus
defeitos.
E, sendo, em meio lamecha e torvo, como o
nosso, por demais agreste para aliciar simpatias,
inevitavelmente fere e irrita na sua passagem.
Quem tiver alma de o compreender assim, em blo-
co, admira-o e estima-o; de contrário, detesta-o.
Cercam-no ódios terríveis e caluniam-no, claro.
Todavia este homem fêz isto: lançou na França
um exército, — o núcleo máximo de energias que
alguém podia arrancar à nossa anemia moral.
E os senhores, que o deiráem, afirmavam em
coro que a nossa cooperação na Europa era in-
teiramente inviável, por absoluta carência de tudo,
desde os oficiais ao mais simples material de guer-
ra. Procurando afundá-lo, não fizeram senão er-
guê-lo.
Dizem então agora: teve excelentes coopera-
dores a auxiliá-lo. Teve alguns, é certo. Mas os
que lhe opuseram a resistência passiva e a propa-
ganda dissolvente, digam lá, não eram em maior
número?
— Esse corpo expedicionário tem defeitos de
organização.
Pudera! Pasma até que não seja mais. Pois os
senhores procuraram fazer disto uma torre de Ba-
bel e queriam que êle regesse lá dentro um or-
feon?
58 • Memórias da Grande Guerra
Não; confessem: julgavam que as portas dos
altos destinos nos estavam trancadas para sem-
pre e eram inabaláveis. E quando o viram seguir,
disposto a entrar, desataram a rir, arvorando a im-
potência própria em dogma universal.
Êle veio; meteu-ihe os ombros; e forçou-as.
Depois ficou de sentinela, à entrada.
E como de lá, do palácio aberto, vem uma luz
de glória, mas de risco e morte, quantos o que-
rem derrubar para saltar por cir«a e fechá-las de
novo!...
Lá fica ainda, mas com o rosto velado pela in-
quietação. Vê-se melhor assim, à luz própria.
No claro-escuro do tempo, que passa e o en-
volve, lateja-lhe esforço, o vulto doloroso, — ca-
riátide do grande edifício da guerra, a que êle pôs
os braços válidos e a quadratura possante dos om-
bros. Pôde ser — quem o sabe? — que os erros de
todos e os crimes de muitos, socavando os cabou-
cos, aluam sobre êle as pesadas muralhas. Mesmo
assim ficará intacto sob os escombros.
Embora os ventos do ódio se desencandeiem,
a sua vontade foi tão ardente que não lhe apagam
o nome.
*
Adeus, adeus, terra de Portugal! Farrapos de
panorama, relâmpagos de beleza, entreluzindo
pela janela do comboio.
Em Viagem 59
Adeus, Almourol, castelo encantado, escarpa
de mistério e lenda, ilha de sonho na doçura do
Rio . . . Constância de bruços entre o Tejo e o Zê-
zere, nascendo do beijo das águas . . . Altp-Alen-
tejo, planície de sobreiros, a perder de vista, ver-
de-glauco de Mar... E tu, adeus, castelo de
Marvão, sentinela da raia, ruina do tempo, mais
cheia de alma, porque estás ao alto e no extremo,
como os olhos na face. Adeus . . .
Lá fica a terra natal! Digam que é pieguice...
embora... mas isto dói cá DEntro.