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dimecres, 25 de març del 2015

LUTA INGLÓRIA Junho de 1917. Masso a passo, inevitavelmente, caminhamos para -*• um desastre interno. A última crise política solucionou-se a favor dos inimigos da guerra. Um ministério partidário nesta conjuntura não pode governar em Portugal. É o mais desastroso erro político para a vida nacional. Primeiro defeito saltando aos olhos: a organi- zação do ministério. Alguns daqueles nomes nem os mesmos partidários julgam neste momento com arcaboiço para investidura tamanha. O Presidente do Ministério tem a atenção focada sobre tão alto escopo, que não enxerga as misérias cá de baixo. Nem o suspeita, estou em crer. Do contrário não se julgava com abastança para substituir a pou- quidade governativa dalguns dos seus colegas. Ao menos os nomes desses ministros deveriam conciliar o maior número de simpatias públicas. Desde logo se oferecia meflos corpo ao ataque. 44 Memórias da Grande Guerra Não aconteceu tal, e compondo-se o . ministério com alguns nomes excelentes, outros ali há dos que mais irritam uma boa parte da opinião. E assente, por hipótese, a necessidade dum ministério partidário, dado que ao partido demo- crático caiba governar neste momento, iremos de- sacreditar com o organismo político que mais defendeu a guerra a própria obra da nossa parti- cipação. — É o mais forte, — dirão. Nós vamos mais longe. É a grande força organizada da Repú- blica; constitui, por assim dizer, a sua coluna vertebral. Atirar-lhe golpes é, alem de prejudicar aquela alta missão, atacar a própria estabilidade do regimen, no seu eixo vital. Exagero? ^Onde o governo capaz de solucionar pelo menos os pro- blemas de urgência? O equilíbrio na vida econó- mica nacional desfez-se de há muito e não há quem tenha a força de promulgar as medidas ra- dicais que o refaçam. Resultado: já em Maio este governo houve de vencer um conflito muito grave e novo no género: os assaltos em massa aos es- tabelecimentos de víveres, qualquer coisa como a revolução da fome, mas com plano e organização secretas. Desmandos, violências, mortes, suspensão de garantias. O governo teve de empregar a for- ça; e esse facto acarretoU-lhe fortes antipatias nas classes populares. Mais um desastre a somar-se a uma longa série deles, pouco a pouco acumulados. Nós pregamos no Parlamento a necessidade Luta Inglória 45 de estabelecer entre governantes e governados a mais estreita solidariedade. Um dos meios a em- pregar seria a propaganda. O governo chegou a reconhecer essa necessidade, mas tarde. Pois nem mesmo assim teve força de a utilizar. A projectada revista que eu e João da Rocha fôramos chama- dos a dirigir, nunca chegou a aparecer. Em parte por incúria do governo e maiormente porque os factos começam a pesar mais que a vontade dos homens. Como pode, pois, um governo partidário, seja qual fôr, estabelecer agora essa solidarie- dade com a nação?! Agora que deixaram desorientar a opinião pública?! — As forças que se opõem ao governo. não teem valor. Não tem cada uma de per si, para uma acção definitiva. Mas unidas, sabe-se lá? Entrem em li- nha de conta com um povo cançado, faminto e por demais desorientado. Dentro do partido democrático w e particular- mente no seu grupo parlamentar, muitos homens começam a ver" o perigo. Nós pertencemos a esse número. De princípio hesitamos em dizê-lo clara- mente na reunião do governo com os parlamen- tares. A prosápia partidária, as hegemonias cria- das, a passividade de muitos hão de lhe opor-se. Depois, aparecem logo a insinuar-se: indisciplina, traição, ambições. Mas a consciência do dever afronta a idea das possíveis suspeitas que hão de 46 Memórias da Grande Guerra lançar sobre nós dentro do próprio partido. E pouco a pouco o pensamento ganha forma. Nas- ceu na própria Câmara dos Deputados duma conversa entre mim, José Ferreira da Silva e An- tónio da Fonseca. Assistia um amigo comum — o jornalista Herculano Nunes, redactor da Câmara dos Deputados, que, entrevendo a mesma verda- de, apoiava as nossas intenções. Aí assentamos em que se devia entregar ao chefe do governo um documento enunciando em poucas mas firmes palavras as nossas reclamações e propósitos. Sabíamos pelas conversas dos Passos Perdi- dos que muitos outros deputados dentro do par-' tido eram da mesma opinião: João de Deus Ra- mos, Ramada Curto, João de Barros, Artur Leitão, Francisco Trancoso, Sousa Rosa, Alberto Xavier, João Camoesas, Lúcio de Azevedo, etc, etc. Houve uma reunião em casa da António da Fonseca, a que assistiram alguns deles, e aí ficou assente entregar ao Dr. Afonso Costa uma. men- sagem expondo e fundamentando claramente as nossas disposições e assinada por todos aqueles deputados. Excluir-se iam apenas, ê de propósito, os nomes dos dois marechais que na ocasião dis- cordavam da conduta governamental, mas que podiam dar ao nosso movimento, com a sua chan- cela, um carácter de scisão partidária, falsa idea, que sistematicamente importava arredar. Eram eles o Dr. António Macieira e António Maria da Silva. Luta Inglória 47 A mensagem, que chegou a estar assinada por vinte e tantos nomes, rezava assim: Ex. mo Sr. Presidente do Ministério: Os deputados signatários, reconhecendo a gra- ve situação política e económica, traduzida pelas queixas, reclamações e inquietações da opinião e da imprensa, convencidos da necessidade de obter a confiança e a cooperação da maioria do país, para atender às urgentes preocupações do mo- mento e assentar as bases do ressurgimento na- cional, cuja aspiração é para todas as angústias presentes o alento e a força; certos de que só no respeito da verdade e da livre opinião pode a de- mocracia portuguesa encontrar as soluções úteis aos interesses nacionais; vêem comunicar a v. ex. a que estão no decidido propósito de apoiar o seguinte programa político: Constituição imediata de um governo nacional em que ''sejam representadas, quanto possível, as correntes partidárias e as classes produtoras, de modo a asse- gurar às medidas governativas o apoio da- queles a quem compete a sua realização. Esclarecimento público por parte do go- verno, de um modo sistemático e quanta possível completo, das questões nacionais, como base indispensável da colaboração 48 Memórias da Grande Guerra de todos e justa condição dos necessá- rios sacrifícios. Estudo e revisão dos problemas actuais, particularmente no que respeita ao esforço militar português e às garantias ou com- pensações internacionais correspondentes, em harmonia com a necessidade impres- cindível de assegurar a vida financeira do país e de promover, desde já e mesmo à custa de imediatos sacrifícios financeiros, o seu desenvolvimento material e moral. Ao fazer a v. ex. a esta comunicação, julgam os deputados signatários cumprir o que neste mo- mento é o seu mais imperioso dever; e tão evi- dente que supõem adquirida, para os fins supe- riores que se propuseram, a cooperação de todos os que, como v. ex. a , inspiram os seus actos no interesse supremo da Pátria e da República. Lisboa, 15 de Junho de 1917. Como este documento tinha um ar de comi- nação delicada, na previsão extrema dum conflito aberto no próprio Parlamento, resultando numa divisão de opiniões, um dos deputados signatários encarregara-se de sondar os unionistas sobre a possibilidade de se formar aquele governo nacio- nal com a sua cooperação. Não era nosso desejo atingir aquele fim por tão violento meio, mas, se o conflito das opiniões lavrasse até aquela assem- O Cristo de Neuve-Chapelle Memórias da Grande Guerra Luta Inglória 49 bleia, e que outrem o aproveitasse para uma mo- ção de desconfiança, redundando na queda ines- perada do governo, melhor seria prevenir a tempo os inconvenientes que uma crise súbita poderia acarretar... E o António da Fonseca conversou longamente com o sr. José Barbosa nos corredo- res da Câmara. As impressões colhidas, ao que parece, não eram boas. O snr. Dr. Afonso Costa, por certo informado dos nossos intentos, antecipou-se e provocou a questão em reunião do grupo parlamentar, deci- dido a fazê-la abortar. No dia seguinte àquele em que o choque se esboçara eu, que tinha em meu poder a mensagem, resolvi entregá-la em plena reunião do grupo par- lamentar, e isso mesmo comunicara a alguns dos signatários. Ali, antes de abrir a sessão, recebi uma carta do António da Fonseca, pedindo-me,' por motivos que depois explicaria, sustasse o meu propósito. Como o documento me não pertencia exclusiva- mente, acedi, contrariado. Esclareceu depois a con- veniência de que êle comportasse outras assinatu- ras dalguns deputados, que ainda o não tinham feiío por estarem ao tempo fora de Lisboa. Assim a luta veio a travar-se, mas com outro aspecto. Adivinhados os nossos intentos, e tornada , imperativa na consciência de muitos a primeira resolução, cada um, tratou de pôr o problema a seu modo. E ao abrir a sessão do grupo, João de 50 Memórias da Grande Guerra Deus Ramos, um dos deputados, em cujo espírito aquele pensamento mais se radicara, tomou a idea da formação dum ministério nacional e lançou-a corajosamente nesta moção que largamente de- fendeu: «A maioria parlamentar, reunida em sessão extraordiná- ria para apreciar a situação política; Ponderando as graves dificuldades com que o actual go- verno está lutando, e lutará cada vez mais, para manter com segurança e inalterável regularidade ó bom nome português na frente da batalha, e, sobretudo, para conservar interna- mente a nação em sacrificada e serena espectativa; Considerando que muitas dessas dificuldades poderiam desaparecer, ou diminuir de importância e gravidade, se o go- verno, em vez de ser partidário — embora fazendo política nacional — fosse um governo caracterizadamente nacional, em que tivessem representação todos os partidos republicanos e ainda outros elementos extra-partidários, de reconhecido valor económico e social, que acatem a bandeira da República; Reconhecendo a necessidade duma urgente solução que dê absoluta garantia de tranquilidade ao país, e de que os actuais ministros das finanças, da guerra e dos estrangeiros possam ter assegurada a sua acção governativa enquanto du- rar o conflito internacional; Resolve nomear uma comissão, composta de dois sena- dores e três deputados, para tratar com as minorias parlamen- tares e as oposições partidárias a formação dum governo na- cional. > Depois eu, Ramada Curto, Alberto Xavier, Francisco Trancoso e António da Fonseca falámos todos, uns defendendo a moção, outros declarando ideas, forçadas por ela....spanha... Rolamos pela planície imensa e calcinada. Tarde de Castela-a- Velha. O sol caiu. A planura ensombrada engasta-se no fundo arco do poente, violeta e rosa-pálido. Para aiêm, ao norte, o espaço é turvo e ardente; lavram nuvens de fogo, rolos de fumo: letibra um incêndio na savana. E na dramática paisagem, longe, no céu alto, só Vénus brilha, — sigla heráldica em campo azul e lilaz, encimando a terra de Portugal. Manhã clara, estamos nas Delícias. Descança- mos na cidade, — Madrid monumental, opulenta e esfaimada, torva de ódios, — seio de estátua, de- vorado por um cancro. Ao sol de Agosto, exala encanto e violência. Uma corrida aos Museus. Depois partir, partir de novo. À despedida tenho o Feliz de Carvalho, cônsul, que sempre me acompanhou, e os rapa- zes da embaixada, gentilíssiinos. Lá sigo.E cá dentro, na visão dos painéis, o 60 v Memórias da Grande Guerra coração da Espanha arde: o Greco delira, no seu pesadelo místico, em labaredas de tinta soturna; Velasquez, clássico e realista, bruxo adivinhando os tempos, pinta com o sangue e a lama da vida; Goya, de olhos em braza, desnuda sobre coxins violetas, a pinceladas de luxúria, o corpo maravi- lhoso da Maja; e Pradilla ergue, a manchas trá- gicas, à luz das tochas, a meio da sombra, do vento e da planície, e entre os fidalgos olhos deso- lados, o fantasma de Joana, la Loca, em frente ho féretro do amante.' Acima, acima. . . Galgamos a noite e o espaço. Amanhecemos sobre os Cantábricos, e, a rolar desfiladeiros, paramos em San Sebastian. Grande festa do Oceano, risos da gente e da espuma, com romeiros de toda a nação. Ao alto, o monte Iguel- do, último assento â% anfiteatro das cordilheiras e no extremo das duas pátrias, olhando a prumo o Mar de Biscaia, em vertigens de abismo. E estamos na França. Amigos, o contraste arripia. Esta gente sangra. Em Hendaia recebe- -nos a primeira parada de faces pálidas, cavadas de emoção. Um pouco acima estamos em Biarritz. Praia de mutilados e cruzes de guerra. As mães e as amantes trouxeram para ali os seus grandes doen- tes. ...E até o Mar está mais sério. Voamos de novo através da noite; e de ma- nhã saltamos na gare d'Orsay. O Melo Barreto Em Viagem 61 espera-me. E nas poucas horas, forradas ao seu grande labor da comissão económica, é o mais fraterno e solícito dos camaradas. Deambulamos » as ruas, à cata de emoções. Paris pode mudar no aspecto. Mas na essência múltipla e profunda é sempre igual a si mesma. Obra de génio dum povo, encarnação máxima de beleza e espírito, as mudanças do tempo podem decrescer ou avivar-lhe a chama; não lha extin- guem. Trouxe-lhe a guerra esta vantagem: as lá- grimas lavaram-lhe tanto a pintura da face que a alma ficou a nú. O aspecto, sim. Mutilados, doentes, cruzes de guerra, um aparato internacio- nal de fardas, e luto, muito luto: uma cidade em crepes. Em espírito é a mesma. A grande cidade sofre. E sofre, porque ama. Ama sempre. Demais Paris proclamou de há muito os Direitos do Homem e os Direitos do Amor. E como ama, assim, orgu- lhosa de amar, nós outros lá de baixo estranha- mos, porque na Península inda não arrancamos esses Direitos à viciação católica. Vi o beijo das epidermes; mas vi também o beijo das almas. Uma tarde, cortando o Jardim das Tulherias, aproximei-me do Théatre de Ver- dure. Ao mesmo tempo chegava num carro longo, ligeiro e alto, como o das crianças, impelido a mãos, um grande ferido de guerra, com a Cruz e a Legião, marcando a farda. Vinha deitado, o corpo envolto, entremostrando o peito e a face. 62 Memórias da Grande Guerra Devagarinho... devagarinho... Como vem tão branco e macerado!... Prende-o de certo à vida a esperança de Lázaro no sepuicro: só um piedoso milagre pode ressuscitá-lo. O carro chega; e logo a multidão que assiste ao espectáculo se afasta a abrir-lhe lugar. Os homens descobfem-se. Um si- lêncio religioso em volta. E depois, uma mulher que o acompanha, alta e formosa, senta-se ao la- do; ficam ali. E, longo tempo, o olhar dela, um olhar que estreita, oscula e embala, fita-se nele, sem despregar, como se esperasse, por milagre de amor, uma influição transcendente, a sarar-lhe o grande mal. Museus fechados. Um pedaço do Louvre e ou- tro' do Luxemburgo, apenas visíveis. Mas vamos daí a Notre-Dame. A catedral é, a seu modo, em pensamento pro- fundo e exuberância polimorfa, a imagem de Pa- ris. Negra e enorme, vista de frente pela fachada alterosa, — que em baixo se cava no triplo envasa- mento dos portais, logo arrendada acima pelo fri- so dos nichos; e após levanta meio corpo; e se alça de novo na galeria das arcadas subtis, para se coroar das duas pesadas torres, — a ciclópica mole apavora e deprime, despenhando-nos, sú- bito, pelo contraste da relação visível, na condição misérrima do grão de areia. Ruiu toda a arquitectura anterior da vida, e esmaga-nos, tamanha a sua imponência, aquele brusco alçado refulge, sob a torrente do sol, no meio dia das cores, a mina das pedrarias, — rubis, turquezas, esmeraldas, engastadas em fogo e crúos; logo acima, contra a paleta frouxa das rosáceas, o jorro da luz arcoíriza-se nas mil tintas esmaiadas da ante-manhã e do ocaso, — róseo, safíreo, rúbido, aviolado; té que nos altos da abóbada e dentre os intercolúnios, um luaceiro místico se côa, — esteira de as"as níveas, confinando as gelosias cimeiras com os áditos do Céu..

Tudo quanto expresso estava na mensagem 
se expôs e defendeu com desassombro. 

Disse eu então, e não o esquecerei, ser convic- 
ção minha que aquele governo, continuando no 
-poder e dentro da mesma política, terminaria com 
uma revolução, pois, a acrescentar a todas as di- 
ficuldades anteriores e vícios ingénitos do gover- 
no, o sr. Dr. Afonso Gosta, chefe dum partido 
radical, sem a coragem de enfiar pelo caminho 
que esse título lhe impunha, esquivando-se a de- 
liberar as medidas financeiras imprescindíveis, 
como o lançamento de impostos sobre os lucros 
de guerra, fazia entre as classes conservadoras e 
as populares uma política de equívoco, toda de 
puro dano, porque poupava os inimigos irredutí- 
veis e distanciava-se dos únicos capazes de lhe 
dar apoio. Noutro sentido era acanhada a sua po- 
lítica financeira: fechando-se a todas as despesas 
sem imediata e restrita aplicação à guerra, desde- 
nhava as medidas capazes de nos apetrechar ma- 
terial e moralmente para colher os frutos do nosso 
esforço, acabada a luta europeia. 

Para a formação do ministério nacional pieco- 
nizávamos a entrada de representantes não só dos 
partidos republicanos, como das classes operárias, 
indo eu até pronuneiar-me pela entrada no minis- 
tério dum católico, dtfs que se afirmavam neutros 
em matéria política. Um governo assim teria a 
confiança da nação e ainda, quando os unionistas 
teimassem no seu alheamento, com a representa- 



52 Memórias da Grande Guerra 

ção restante êle tornava, só por si, impossível 
qualquer tentativa revolucionária. Eram necessá- 
rias pesadas concessões? Tudo era preferível à in- 
tranquilidade e à perspectiva dum desastre interno. 

Mais ou menos todos defendemos estas opi- 
niões. 

O snr. Dr. Afonso Costa ouviu-nos até ao 
fim de boca cerrada e viseira sombria. E ora o vereis 
que se ergue e se lança ao ataque, tomando uma a 
uma as suas melhores armas, lento, calmo, arro- 
gante, até despedir sobre nós o raio fulminatório. 

Descobrira o ponto vulnerável: uma démarche, 
de nossa iniciativa, para a formação do governo na- 
cional, representava um cheque no governo e no 
partido e eram a sua confissão pública de incapaci- 
dade e desautoração suprema, dadas as responsabili- 
dades gravíssimas assumidas no problema da guerra. 
E com o seu esplêndido poder dialéctico, a danosa 
prática do foro (àquela hora já os jurados haviam 
de estar seguros) e a educação de esgrimista, in- 
sistiu no ponto fraco, deu-lhe proporções capazes 
de esconder tudo o mais, levou-o, por hipótese, 
até às piores consequências, e, chegado ao ponto 
culminante em que o auditório se deslumbra e o 
inimigo jorra sangue, ataca-nos então de frente, 
apoda-nos de descrentes, indisciplinados, a doença 
do partido, e de tal forma empolga a assemblea 
que os próprios rebeldes de há pouco deixam 
cair as armas e já lhe pagam, humílimos, tributo 
de apoio e aplauso. Um confessa-se vencido e 



Luta Inglória 53 

convencido, outro entrega-se com armas e baga- 
gens, e até o Ramada Curto, que pronunciara nas 
vésperas um discurso formidável conclui afirman- 
do-lhe que o conflito tivera uma vantagem, — 
mostrar mais % uma vez e duma maneira irrefragá- 
vel a sua superioridade sobre todos os outros. Era 
verdade. Tinham sido vencidos os liliputianos. 

Tentei ainda resistir: que ele versara apenas 
um lado da questão, que se o meio não era o me* 
lhor, era o propósito excelente, levantei os epíte- 
tos depreciativos... Mas que importava agora? 
Acutilava sozinho em meio da debandada final. 
Era forçoso curvar-me. Nenhum de nós tinha pul- 
so para a funda de David; nem do coração da 
arraia brotava o arrojo dos fundibulários. Toda a 
gente mesmo se erguia fatigada. Findara o torneio. 

E era de ver o vencedor radiando alegria triun- 
fante. Abraços, cumprimentos, risos. E, ao cortar 
a sala, ei-lo, pára na minha frente, poisa-me a 
mão no ombro e sai-lhe, na efusão da vitória, a 
modos de balanço final: 

— Este é o mais ingénuo. . . 

Juizo profundo, que, excluindo, é lato e tenta, 
com as molas próprias, compor a engrenagem da 
máquina inteira. 

Eu volto: 

— Agradeço-lhe do coração: não podia di- 
zer-me palavra mais lisongeira.' 

Em verdade vos digo: alguma razão lhe dou. 

Oxalá êle não venha também a dar-ma. 



EM VIAGEM 



Agosto de 1917. 

Restes últimos seis meses voltei a ser estudante. 
*~ ' - Como, desde a formatura, há mais de sete 
anos, não exerço a profissão, posto assim ao abri- 
go da lei que isenta todos os médicos, em condi- 
ções tais, do serviço militar, refaço nos hospitais 
a minha educação médica.' Pois que sou voluntá- 
rio, valorizo a oferta e justifico a lei. 

Também o meu recente fracasso, esfolhando- 
-me as ilusões sobre o proveito de lutar, desviou- 
-me do ring politico. Vencido, mas não con- 
vencido, continuo, todavia, na minha atitude de 
protesto. O meu desejo agora é partir quanto an- 
tes. Além de que, como todos quantos rompem o 
círculo dos logros convencionais e vêem cá para 
fora dizer, como o garoto da lenda, que o rei vai 
nú, começo a convencer-me que sou de mais, 
assediam-me com suspeitas, oferecimentos equívo- 
cos e olhares desconfiados. 



Em Viagem 55 

Uf! No dia em que partir teremos todos um 
suspiro de alívio. 

Sim! eu permaneço na minha. Ainda agora os 
acontecimentos de julho, a greve da construção 
civil com todo o seu violento aparato, me levam 
a crer que estou na razão. O governo divorcia-se 
do povo, ou pelo menos duma parte dele. E tudo 
por estreiteza de visão. E por falta da verdadeira 
coragem. 

Parto. Chegou o dia. E na véspera vou despe- 
dir-me do ministro da guerra. Encontro-o no seu 
gabinete, à hora previamente marcada para me 
receber. 

O snr. Norton de Matos está na sua cadeira e 
finca sobre os joelhos as palmas das mãos, com o 
geito afadigado, que, até no repouso, guardam os 
homens activos. Uma grande sombra de cuidado 
arruga-lhe a fronte e os olhos. 

Digo-lhe o meu desejo de que a sua elevada 
missão possa alcançar o termo vitorioso, sem gran- 
des esforços. Cala-se. Tem um momo de quem 
duvida, e logo me diz claramente o seu receio, 
acabando à laia de comentário: 

— Não; isto não se leva com panos quentes. 

A seu vêr, requeria-se uma política mais deci- 
dida e radical. E a sombra, feita 'de cansaço e 
preocupação, alastra dos sulcos da fronte a toda a 
cara. 

Despeço-me. Apertamos as mãos. 

À saída vou também dizer adeus ao Tejo, que 



56 x . v Memórias da Grande Guerra » 

\ 

f>si"aif vai na frente. Engolfo a vista, ao largo, sobre 
o vasto estuário do Rio, todo a turqueza azul e 
espumas irizadas. . 

Belo rio! Bela terra!... Mas por que demónio, 
desde sempre, mal um homem alevanta ombros 
fortes sobre a turba-multa dos derreados, logo a 
matilha dos ódios arreganha colmilhos à sua volta? 

Sim! os seus ombros são válidos e isso ama- 
chuca os homúnculos de espinhela caída. 

Aquela sombra, que eu lhe vi no rosto, anu- 
via-me também por dentro. 

E começo a recompor, traço a traço, a sua 
obra e figura. 

O seu vulto, só por si, exala esforço contido. 
Meão, entroncado, a gorja curta c. larga, o gesto 
brusco, e, na máscara dura, os. olhos graves e quási 
tristes das aves de presa. Sobre isto uma correcta 
distinção; monóculo. 

Todo êle é um imperativo de energia máscula. 
Não descansa. Trabalha no seu" gabinete pela noite 
dentro até altas horas; ao começar a manhã, volta, 
indomável, à faina. 

Homem para agir, é-lhe penoso falar. Mas» 
quando fala, na própria rudeza da frase, excluindo 
todo o artifício, palpa-se a sinceridade. Se o ata- 
cam, assemelha-se a um grande pedreiro irado, 
que interromperam na obra: argumenta com as 
mesmas pedras que tem na mão, ou brande os 
punhos fechados no rasgo sacudido de quem 
abate um camartelo. Então, lembra certas estátuas 



4/ 




Uma cara das trincheiras 
(o alferes miliciano Carneiro Franco) 



Memórias da Grande Gierra 



\ 



Em Viagem 57 



de Rodin, cuja figura vaga e áspera a custo ar- 
ranca na massa do mármore. 

Arrebatado, excede-se nas virtudes, até os seus 
defeitos. 

E, sendo, em meio lamecha e torvo, como o 
nosso, por demais agreste para aliciar simpatias, 
inevitavelmente fere e irrita na sua passagem. 
Quem tiver alma de o compreender assim, em blo- 
co, admira-o e estima-o; de contrário, detesta-o. 
Cercam-no ódios terríveis e caluniam-no, claro. 

Todavia este homem fêz isto: lançou na França 
um exército, — o núcleo máximo de energias que 
alguém podia arrancar à nossa anemia moral. 

E os senhores, que o deiráem, afirmavam em 
coro que a nossa cooperação na Europa era in- 
teiramente inviável, por absoluta carência de tudo, 
desde os oficiais ao mais simples material de guer- 
ra. Procurando afundá-lo, não fizeram senão er- 
guê-lo. 

Dizem então agora: teve excelentes coopera- 
dores a auxiliá-lo. Teve alguns, é certo. Mas os 
que lhe opuseram a resistência passiva e a propa- 
ganda dissolvente, digam lá, não eram em maior 
número? 

— Esse corpo expedicionário tem defeitos de 
organização. 

Pudera! Pasma até que não seja mais. Pois os 
senhores procuraram fazer disto uma torre de Ba- 
bel e queriam que êle regesse lá dentro um or- 
feon? 



58 • Memórias da Grande Guerra 

Não; confessem: julgavam que as portas dos 
altos destinos nos estavam trancadas para sem- 
pre e eram inabaláveis. E quando o viram seguir, 
disposto a entrar, desataram a rir, arvorando a im- 
potência própria em dogma universal. 

Êle veio; meteu-ihe os ombros; e forçou-as. 
Depois ficou de sentinela, à entrada. 

E como de lá, do palácio aberto, vem uma luz 
de glória, mas de risco e morte, quantos o que- 
rem derrubar para saltar por cir«a e fechá-las de 
novo!... 

Lá fica ainda, mas com o rosto velado pela in- 
quietação. Vê-se melhor assim, à luz própria. 

No claro-escuro do tempo, que passa e o en- 
volve, lateja-lhe esforço, o vulto doloroso, — ca- 
riátide do grande edifício da guerra, a que êle pôs 
os braços válidos e a quadratura possante dos om- 
bros. Pôde ser — quem o sabe? — que os erros de 
todos e os crimes de muitos, socavando os cabou- 
cos, aluam sobre êle as pesadas muralhas. Mesmo 
assim ficará intacto sob os escombros. 

Embora os ventos do ódio se desencandeiem, 

a sua vontade foi tão ardente que não lhe apagam 

o nome. 

* 



Adeus, adeus, terra de Portugal! Farrapos de 
panorama, relâmpagos de beleza, entreluzindo 
pela janela do comboio. 



Em Viagem 59 

Adeus, Almourol, castelo encantado, escarpa 
de mistério e lenda, ilha de sonho na doçura do 
Rio . . . Constância de bruços entre o Tejo e o Zê- 
zere, nascendo do beijo das águas . . . Altp-Alen- 
tejo, planície de sobreiros, a perder de vista, ver- 
de-glauco de Mar... E tu, adeus, castelo de 
Marvão, sentinela da raia, ruina do tempo, mais 
cheia de alma, porque estás ao alto e no extremo, 
como os olhos na face. Adeus . . . 

Lá fica a terra natal! Digam que é pieguice... 
embora... mas isto dói cá DEntro.